Provavelmente já nos deparamos no curso de Letras, ou em qualquer outra situação, com uma dúvida bastante pertinente: Afinal, qual é a diferença entre poesia e poema? Será que essa diferença existe mesmo? Ou são apenas sinônimos?
As relações e as diferenças entre os dois gêneros são um pouco conflitantes, por isso o título opositivo. São tão parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes, são quase tão intrigantes como as nomenclaturas dos fenômenos linguísticos... Quase! Mas tentaremos decifrar essa “antítese”.
O poema é uma forma fixa, tem compromisso com a métrica e é geralmente um pouco extenso, podemos até dizer que é uma “prosa em versos”. Faz, muitas vezes, referência a acontecimentos históricos, como O Navio Negreiro de Castro Alves, por exemplo. Mas apesar de ser uma narrativa em versos, fazer poema não é tão simples quanto parece. O poeta precisa desenvolver a realidade dentro de um mundo abstrato. Precisa transformar o real, o concreto, o objeto, a substância, o visível aos olhos, numa expressão poética. Quem discorreu muito sobre esse assunto foi Aristóteles, em A Poética. O filósofo dizia que a tarefa do poeta não é simplesmente narrar os fatos, ele necessita representar o que poderia ter acontecido, a famosa imitação da realidade, Mimesis para os íntimos. O poema é bastante teatral, representativo, dramático. Está em sua essência essa representação da vida, mas há quem diga que o ser humano foi quem adotou os ideais poéticos, principalmente os românticos, provavelmente foi isso que nos levou àquela que é uma das maiores indagações: “A arte imita a vida, ou a vida imita a arte?”. Talvez seja mais fácil responder se o ovo veio antes da galinha, e vice-versa. O fato é que poema é a linha em que se desenrola a poesia, é a vida representada em versos metrificados, sejam eles decassílabos ou alexandrinos, heroicos ou sáficos.
Basicamente, a poesia se compromete com a musicalidade: figuras de estilo, rimas e ritmo. Ao contrário do que dizem as más informadas línguas, poesia não é somente admirar a natureza, ou cantar a beleza da amada, ou lamentar o amor não-correspondido. Vai sim muito além do simples deslumbre, e para perceber esse fato necessitamos de um conhecimento intuitivo. O objetivo da poesia não é informar ou persuadir, pelo contrário, a poesia tem um compromisso com a emoção. É preciso ter sensibilidade, intuição e muita imaginação para compreender suas formas e mensagens. Uma tarefa um tanto difícil em dias como os de hoje. A praticidade, objetividade e o ritmo acelerado em que vivemos nos privam de entender a alma da poesia, mas por que essa compreensão é tão complicada? Peço licença para tomar as palavras de uma querida professora: “O ser humano optou pela razão e, neste momento, instaurou-se no mundo a tragédia.” Pronto. É isso. Talvez a nossa razão seja meio cega, talvez ela ofusque esse brilho tão característico da poesia, talvez não tenhamos a sensibilidade necessária para compreendê-la, mas não nos desesperemos, pois, por sorte, a compreensão deve ser a última das intenções da poesia, logo isso não nos impede de apreciá-la. Jamais! Enquanto pudermos sentir a paz, a leveza, a nossa alma em sintonia com a musicalidade dos versos, nosso espírito se deslocando para o espaço descrito nas estrofes, enquanto pudermos nos encantar, enquanto nos emocionarmos com semelhante arte, manteremos vivos dentro de nós o ser humano, não aquele de carne e osso, mas aquele de carne, osso e coração, principalmente.
Vanessa – 4º Semestre