- Senhor, me dê coragem. – Era o que Maria implorava do alto do abismo, ajoelhada com uma cruz na mão, e outra imaginária nas costas.
Tudo começou quando ela nasceu. Um grito de dor lancinante e a mãe sorri apesar da dor. Um choro estridente e o pai, quase contente por mais uma menina, fuma seu cigarro de palha. As irmãs na casa da tia esperavam a irmãzinha e a mais nova boneca.
Dentre tantas, mais uma Maria. A terceira das três. Marias por devoção materna e preguiça paterna. De pés no chão e comendo sobras ela crescia, de barriga quase vazia e cabeça repleta de sonhos: lugares que ela nunca viu, rostos que ela nunca conheceu, palavras que ela nunca ouviu, livros que ela nunca leu. Com a enxada nas mãos ela ia pra roça com o pai e contava para ele sobre os seus sonhos. O pai ria amargurado das histórias da filha, ela era tão sonhadora que não merecia aquela vida e ele apenas respondia:
- Você é o beija-flor do pai, um dia vai voar, se vai! – E Maria sorria.
Um dia, Padre Bento passou por aquelas bandas e emocionado ouviu o relato do pai de Maria. Ele contou que ela era uma boa filha, esforçada, inteligente e sonhadora merecia uma oportunidade na vida. O Padre logo pensou no colégio que sua diocese mantinha e propôs levar Maria e lá ela estudaria. O pai não agüentou de tanta felicidade, chorando abraçou o Padre, chorando foi pra casa contar a novidade e chorando despediu-se da filha que partia para a cidade grande e que ele nunca mais veria.
As freiras adoravam a alegria de Maria, logo ela se tornou a preferida. O Padre admirava suas perguntas e dele ela era a protegida. Tinha saudades da família e sonhava em voltar pra eles um dia, ou então trazê-los para a sua vida colorida.
Sua cabeça pesava. Sempre um novo aprendizado, sempre uma nova descoberta, sempre um mundo de possibilidades. Maria terminou o colegial e ingressou na faculdade, o curso escolhido era letras. Maria ria e estudava, não dormia e não cansava, o tempo corria e ela ainda sonhava.
Sonhava com o término da faculdade, que estava próxima. Com as turmas que assumiria na escola do bairro, com a visita que faria naquele final de ano à sua família e com todos os outros sonhos que ela nem sabia que tinha.
Até que uma carta chegou. Meio amarelada e datada de uns meses atrás. Surpresa, ela abriu e leu. Leu e amaldiçoou aquelas palavras, que entusiasmada ela aprendera a ler. Compreendeu aqueles acontecimentos e odiou a distância. Odiou ter deixado os pais, ter aprendido a ler e a compreender, sonhar e ver os sonhos virando realidade. A família, ou melhor, toda a sua família havia morrido em função das queimadas. Sua mãe, suas irmãs, seu pai e sua tia. Agora, não havia mais ninguém. Ela estava sozinha. Sem motivos para sonhar e sem ninguém para voltar.
Maria não mais ria nem estudava. Não dormia e não cansava. O tempo corria e ela não sonhava, se esvaia morrendo um pouco a cada dia. Ainda era a preferida das freiras mas não havia alegria. Ainda era a protegida do Padre mas não mais o agradecia. Só sabia chorar, sem derramar lágrimas. Sofrer sem blasfemar. Existir sem viver. Um poço profundo de saudades e perdas.
Até chegar ao alto do abismo. Fazer uma ligeira prece a Deus e pedir coragem.
- Senhor, me dê coragem.
Coragem pedida, coragem concedida, olhos na cruz e no nada. Lembrou-se das palavras do pai:
- Você é o beija-flor do pai, um dia vai voar, se vai!
E ela voou. Deu um salto e pulou naquela imensidão azul. Agora e para todo o sempre.
Por Etiene